~ Daydreamer´s room


“Lugar Nenhum, 27 de novembro de 2004

 

 

Olá...

 

Eu sei que pode parecer estranho pra você receber uma carta minha depois de tanto tempo sem contato; mas é que eu estou sozinha, só me resta você. Estou realmente precisando desabafar e contar algumas coisas. Primeiro, gostaria de te explicar o porquê do “lugar nenhum”. Você conhece a minha história e os meus amores, sabe qual foi o mais importante deles, e é sobre isso que quero te falar. Antes de conhecê-lo, eu estava perdida, eu vivia a minha vida sem paixão e sem me importar com o que iria acontecer comigo. Sempre fui sozinha, já havia me acostumado a não deixar ninguém alcançar meus sentimentos mais profundos. Mas, ele chegou devagar, me enchendo de carinho e eu acabei deixando ele se aproximar mais e mais. A partir daí minha vida se iluminou, ficou colorida... o sorriso dele era meu alimento e tudo o que ele fazia era belo. Nunca alguém havia me tratado daquele jeito, me sentia protegida, ele me abraçava e eu pensava que no mundo jamais existiria outro sentimento tão verdadeiro e bonito como aquele. Era tão perfeito que eu tinha medo... medo de que acabasse e de que eu me machucasse, ou pior, de que ele saísse machucado. Bem, o tempo foi passando e ele se tornava cada vez mais importante pra mim; você sabe, acompanhou parte da história e, naquela época, você e eu ainda mantínhamos um contato assíduo...

Eu o amava mais do que a mim mesma, e este foi um dos meus erros. A minha felicidade dependia quase que exclusivamente dele, mas eu não tinha do que reclamar... ele foi uma das melhores pessoas que conheci na vida; engraçado, sempre gentil, atencioso, carinhoso, compreensivo... ele sempre achava as palavras pra me fazer sentir melhor, ele parecia sempre estar certo e quando eu olhava em seus olhos eu só conseguia agradecer mentalmente por ter tido tanta sorte e por terem colocado aquele prêmio em meu caminho. Ficávamos horas nos olhando e trocando carinhos sem dizer nada... a cumplicidade era tanta que o silêncio nunca incomodava, éramos muito próximos, quase um só. Palavras se tornavam desnecessárias. Eu nunca pedi nada disso, mas ganhei... ele caiu do céu e me fez viver.

Certo dia, estávamos eu e ele debaixo de uma árvore no parque perto de casa. Ele insistiu que fôssemos dar um passeio, e eu aceitei. Ele recitou dois poemas que fez pra mim, e eu nem acreditava na sorte que tinha... Ele falou também de você, perguntou como estava e se continuava comendo muito doce... disse que sim, que você era muito teimosa mesmo, e que eu estava tentando te convencer a deixar de ser tão chata. Conversamos muito, foi ficando tarde, eu disse que já estava na hora de ir embora e me levantei, mas ele delicadamente me puxou de volta e me roubou um beijo. Deste em particular me lembro completamente, cada segundo, cada movimento, o cheiro bom dele e o seu gosto doce... ele me amava. Então nos levantamos e saímos de mãos dadas. Ainda antes de sair do parque ele parou e me olhou de um jeito diferente, então eu dei um sorriso e perguntei o que estava acontecendo. Ele parecia querer me falar alguma coisa, mas não conseguia. Sua expressão foi ficando séria e então eu entendi.

Você já me viu chorar alguma vez? Já me viu triste por causa de alguém a ponto de achar que minha vida não tinha mais valor? Pois eu chorei, e desta vez chorei por todas as outras em que não consegui derramar nenhuma lágrima. Nunca achei que algo pudesse doer tanto como isso, nunca... quando ele me contou que iria partir, eu fiquei tão assustada que não conseguia falar nada. Ele me abraçou e eu me sentia tão mal que tinha vontade de sumir. Mas quem sumiu não fui eu.

Ele se foi, querida, me deixou e nunca mais vai voltar, não pra mim, não como antes... È morto, como diria o nosso nonno. E não pense que foi fácil pra mim dizer esta frase, tive até que usar outra língua, pra que não soasse tão pesado... acabei voltando para lugar nenhum e embora não esteja mais perdida, a saudade dói. Eu sei que desta parte da história você não sabia, e achei que deveria te contar.

Mesmo depois de tanto tempo, eu tenho certeza que você ainda se preocupa comigo e ainda pensa em mim, eu sinto isso, e sei que logo vai me responder como se nunca tivéssemos nos afastado, eu te conheço.

Era isso o que eu tinha pra te dizer; eu estou melhor, não choro mais, mas a saudade dele é algo que vai me acompanhar pra vida toda. Todas as noites eu peço para que ele esteja bem, pra que ele seja feliz onde estiver... Eu tenho consciência de que ele vai me acompanhar sempre, e de que nunca vou esquecê-lo, porque o amei tanto, mas tanto, que ele ainda vive aqui, em mim.  E em cada próximo beijo que eu der, eu vou procurar o gosto doce dele, em cada novo abraço vou procurar a proteção que ele me dava, em cada olhar com que eu me deparar vou procurar involuntariamente resquícios do amor que ele me devotava. Mas, a vida não acabou como eu pensei, foi tudo bom, amar é bom.

Aguardo tua resposta, não me deixe sozinha agora, por favor...

 

 

 

 

                                                                              E. A.”

 

 



Escrito por Roberta às 18h38
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